Sobre moedas e mercado

Debates acalorados têm movimentado a comunidade de desenvolvedores e usuários de software há algum tempo. A comparação entre as duas filosofias básicas de como levar um projeto de computação adiante, como uma 'Catedral' ou um 'Bazar' (pela definição de Erick Raymond), acirrou-se desde que o Open Source estabeleceu-se como uma maneira não apenas viável, mas por vezes mais eficiente e vantajosa de desenvolver produtos, em relação ao método mais conservador de manter o código limitado aos olhos apenas de um grupo de programadores e gerentes numa empresa. Entretanto, ainda fazendo uso da metáfora de Raymond, a própria comparação entre uma catedral e um bazar, no sentido de torná-los excludentes, soa absurda, já que ambos se fazem necessários por diferentes razões. Da mesma maneira, tanto a existência de empresas que protegem seus códigos e adotam modelos de gerenciamento quase monásticos, quanto de grupos de pessoas lideradas por alguém carismático que foca o esforço de voluntários são essenciais para o progresso da indústria.

Uma discussão sobre a dicotomia Open e Closed Source deve ser feita baseando-se não nos extremos ou em visões limitadas a respeito do mercado, mas sim no que realmente ocorre. Stallman, criador do projeto GNU e do 'copyleft', é obviamente um pregador: o movimento Free Software da forma como foi concebido, e é importante frisar 'movimento' nesse caso, trata-se não apenas de uma abordagem ao desafio de criação de um software, mas também um modo idealista de ver o mercado. Ignora, em sua essência, que, para se sustentar, uma indústria (e em instâncias mais baixas, o próprio desenvolvedor) precisa de capital e não pode se basear apenas nos lucros vindos do fornecimento de serviços e no patrocínio de empresas de hardware. Para se caracterizar em um mercado, o desenvolvimento, como implementação de soluções, precisa buscar retorno financeiro oferecendo produtos à demanda. Assim sendo, embora como filosofia de desenvolvimento o modo bazar se apresente como uma ótima alternativa teórica (uma vez que faz proveito das vantagens da quantidade de mão-de-obra reduzindo drasticamente as desvantagens organizacionais de uma grande equipe, ao driblar as condições da Curva de Ford, ele mostra-se insustentável economicamente quando comparado ao modo catedral.

Ainda que haja muita discussão a respeito da revolução que o Open Source vem causando, os diversos dogmas, em si, são mais corriqueiros do que os fundamentalistas de ambos os lados clamam. Práticas como deixar disponíveis os códigos de programas, adotar a estratégia de muitas pessoas não profundamente ligadas ao projeto do software participarem de sua revisão (mesmo que sejam funcionários da própria empresa, como é o caso da Microsoft) e buscar formas mais maleáveis de gerenciamento são adotados por diversas empresas do mundo inteiro, desde muito antes de licenças como a GPL existirem. O que possibilita todo o impacto é a facilidade advinda da Internet, que pode unir um número considerável de indivíduos com habilidade acima da média e interesse real (e não estimulado financeiramente) por projetos com os quais podem contribuir de maneiras diversificadas. A idéia de fazer algo por puro prazer, ganhando com isso fama nas comunidades de que faz parte, e ainda aumentar suas habilidades sem muitas exigências (por exemplo, currículos fenomenais) que não sejam esforço e autodidatismo é extremamente atraente para qualquer um que se diga programador. E sendo a paixão pelo que se está fazendo e a liberdade de explorar alguns dos grandes combustíveis geradores de qualidade e melhorias em qualquer atividade, é apenas natural que projetos Open Source quando guiados da maneira apropriada tornem-se sucessos incontestáveis.

A solução para esse suposto dilema? Convivência. A catedral dificilmente terá a produtividade do bazar, o bazar dificilmente será sólido, sustentável como a catedral. Mas ambos são os lados de uma mesma moeda que não seria uma moeda se não tivesse dois lados. Cabe aos donos de empresas e aos desenvolvedores usarem o lado que lhes convier e, porque não, misturá-los como quiser.

Dênis Baptista Rosas
Raul Kist

Last edited Nov 7, 2006 at 11:08 AM by joicekafer, version 4

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